NAMALIMBA

Zona da sessão: Jardim Botânico Tropical (Belém)
Convidada: Namalimba
Assessora de imprensa Museu Coleção Berardo
Menina ou Moça?
… Alma de Menina antiga com atitude de Moça contemporânea.


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Se isto fosse o teu perfil numa rede social, qual era o ‘sobre’ da Namalimba?
O Tempo e o Modo somos nós.
Nasci em Luanda, onde vivi parte da minha infância, da qual guardo memórias intensas e bonitas, apesar do contexto de guerra civil em que cresci, antes de vir viver para Lisboa. Ávida de mundo, rumei para Paris onde concluí o curso de Direito e onde me especializei na área de Direitos Humanos, que me levou a experienciar realidades humanas, académicas e profissionais inesquecíveis. Regressei a Lisboa em 2003, onde troquei os meus manuais de direito pelo universo da comunicação e das artes, a descoberta de uma afinidade de vida que se revelou uma vocação, até hoje.
Sou mãe do Kenzo e da Jade <3

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Qual o projecto profissional de que te orgulhas mais?
Orgulho-me de todos, cada um deles proporcionou-me uma experiencia única, que me permitiu construir uma percurso muito transversal, no contexto do qual fui sempre confrontada com desafios muito distintos, em universos muito próprios.
No momento presente sinto-me realizada nesta missão que desempenho na área das artes e da comunicação, principalmente pelo caminho que fui desbravando neste percurso, em que não conhecia ninguém do meio, e no antípoda dos meus manuais de direito. Tive experiencias muito gratificantes nas responsabilidades que assumi em projetos mais mediáticos (ExperimentaDesign, Festival Jazz em Agosto da Gulbenkian; ModaLisboa), e claro, no Museu Coleção Berardo, mas confesso que sinto uma honra especial por ter colaborado com projetos independentes e disruptivos, aqueles que lutam para existir, sempre em condições adversas, entre os quais destaco alguns ligados à Arte Urbana (CRONO, Underdogs, etc), Artes performativas (Temps d’images), (FUSO – Festival de vídeo Arte), entre outros, que se distinguem pelas circunstâncias em que surgiram, com propósitos muito nobres.

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No entanto, o que mais me orgulho de ter feito, antes de descobrir esta minha afinidade com as artes e comunicação, foi algo tive oportunidade de fazer na minha outra vida, na área de Direitos humanos. Crente que seria essa a minha vocação, nomeadamente pela forma como sentia que recebia e devolvia ao mundo, com o que estava ao meu alcance, através do meu humilde desempenho nesse domínio. Tudo começou em Paris, onde cruzei pessoas e vivências em contextos absolutamente improváveis, em suspensão de tudo o que era a minha zona de conforto. Eramos vinte e quatro alunos do mundo inteiro, oriundos de culturas e formações muitos diversas, acolhidas por este projeto de Direitos Humanos, na Universidade de Nanterre, que me levou a ser, dar e receber sem fronteiras, onde conheci pessoas únicas, pela sua história de vida e dimensão interior – inspiradoras pela sua idiossincrasia e pro atividade na contestação de direitos, em sintonia com o que representava Nanterre, enquanto ponto de origem do movimento estudantil de Maio de 68. Paralelamente integrei uma “Law Clinic” na École Doctorale de la Sorbonne – um projeto de cooperação com as Nações Unidas e os Tribunais Penais Internacionais do Ruanda e Ex-Jugoslávia, em que preparávamos relatórios e debatíamos conceitos e questões que tinham uma relevância prática no terreno, com ligação aos processos de julgamento de crimes de Genocídio, crimes de Guerra e crimes contra a Humanidade a decorrer nesses tribunais especiais criados para o efeito. Ou seja, frequentava duas universidades que me proporcionavam uma vivência de duas realidades sociais e académicas completamente díspares, uma no subúrbio e outra no centro de Paris, nas quais nos propúnhamos a abraçar desafios humanos, jurídicos, e sociais, que tinham consequências reais, práticas, que podiam mudar contribuir para questionar sistemas sociais e jurídicos, lutar por causas com fundamentos legais que as defendessem, tocar pessoas e vidas reais, nas suas respetivas áreas de intervenção. Complementei estas experiências com outras duas, igualmente inesquecíveis, ao longo de seis meses em que estagiei no Centro de informação das Nações Unidas (na altura, com um trabalho muito focado na causa de Timor Leste – tema que escolhi para a minha tese), como na experiência que vivi nas sessões de trabalho que acompanhava na Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas, em Genebra.
Sim, esta minha outra vida com ligação aos Direitos Humanos, orgulho-me muito de a ter vivido, principalmente pela bagagem de perspetivas e de humanidade que dela trouxe de volta, e que em mim ficará para sempre.

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Um piropo a Lisboa (aqui ainda se pode).
(Estou a sorrir e a tentar inspirar-me na pureza dos poemas de Amor que o meu adorado filho me escreve, atrevendo-me ainda a dar-lhe um cunho popular, já que estamos em junho… Aqui vai:
“Minha Linda Lisboa.
És única e bela, pelo encanto dessa luz que é só tua, que quando em nós refletida, percebemos como é só nossa.
Rendo-me ao raiar do sol que nas tuas colinas incide, ao espelhar do teu brilho na superfície do Tejo, e à intensidade com que nos iluminas com a glória da tua alma.
Só a ti te confesso que, parte de mim vive na eterna saudade de Luanda e Paris, mas foi aqui, contigo, que escolhi morar e ser feliz.”

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Um roteiro para o dia perfeito na cidade?
Não há regras, gosto da ideia de deambular pela cidade e deixar que a vida vá acontecendo. Faço muito isso. Mas a ter que traçar um percurso… Talvez começasse por tomar o pequeno almoço na praia (É tão perto! Temos tanta sorte! Devemos celebrar esse privilégio!). Se fosse sábado, iria direta para o mercado ou para a feira da Ladra, entregar-me aos rituais e cantinhos do costume. Pelo caminho, acredito que algo de emocionante iria acontecer, acontece sempre! É tão bom viver a vida com essa possibilidade, de ser levada a fazer algo não planeado. Vivem-se momentos tão incríveis e inesperados em consequência dessa dinâmica. E em função disso desenha-se o resto do dia como chegar… Há sempre um encontro espontâneo ou alguém que nos desafia para um programa inesperado.

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Não havendo uma alternativa espontânea,então passaria por casa para me refrescar, seguindo rumo à esplanada do “Espaço Espelho d’Água”, para petiscar sabores do mundo, a tempo de me despedir do sol no “Park”, não sem antes passar para ver alguma exposição, entre as muitas que, orgulhosamente, fazem parte do roteiro cultural de Lisboa. Á noite, optaria por jantar um bife argentino no mítico “Café Buenos Aires”, pronta para o baile, rendida, à energia contagiante do B.Leza. O baile também poderia ser no domingo, numa das matinés dançantes, caso nessa noite optasse por outro programa para o qual tivesse sido desafiada nos entretantos deste deambular.
Lisboa permite-nos viver com essa atitude de vida, livre e espontânea. Do campo ao mar, temos todas as alternativas ao nosso alcance, aqui tão perto, a par de uma vivência urbana, que nos permite construir rituais próprios que nenhuma outra cidade no mundo consegue proporcionar.

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Um tasco, uma tasca, um boteco ou um botequim.
“Moamba”, em Alcântara, há especialidades para todos os gostos, mas a escolha aqui é óbvia- A deliciosa Moamba de galinha, acompanhada de funje. Mas também tem Kitaba, Kalulu, Cachupa de Cabo Verde e para os mais esquisitos, há cozido à portuguesa.

Um (ou outro) link que valha a pena fazer um clique.
Tenho muitas sugestões, a maioria, seguramente, muito cool e em sintonia com as expectativas de aceder a informação e imagens vibrantes. No entanto, acho que esses sites não precisam de mais celebrações da nossa parte e, já que me dás uma oportunidade de partilha pública, então opto por sugerir uma atitude, ou um site, em que, esse tal clique que mencionas, faça a diferença… por podermos contribuir para algo maior, por alguma causa ou por alguém.
Está verdadeiramente ao nosso alcance fazer a diferença, em qualquer parte do mundo que estejamos. Na esquina da rua onde cada um de nós vive, literalmente, existem pessoas a quem podemos dar os brinquedos e roupas dos nossos filhos ou nossas, bastando para tal perguntar na pastelaria ou na mercearia do bairro.

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Ou se querem optar por um clique, então sugiro a ADDHU – Associação DE Defesa dos Direitos Humanos. Com apenas um telefonema podemos proporcionar uma refeição por dia a uma criança, entre outras formas de contribuir com valores que nos são irrisórios. Existe também a possibilidade de apadrinhar uma criança, a quem garantimos dignidade de vida por um valor mensal que pode proporcionar o essencial, a uma criança que nada tem. Cito este exemplo da ADDHU pois para além de ajudar sempre que me é possível, posso garantir a idoneidade dos fundadores desta ONG, bem como a concretização da sua missão no terreno, com provas dadas.
http://www.addhu.org/index.php/a-addhu
http://www.addhu.org/index.php/como-ajudar/apadrinhamento-wanalea

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Um evento ou um espectáculo imperdível.
Todos ao ar livre, para celebrarmos o verão…
– De 8 a 30 de julho, recomendo o “Festival ao Largo”, os concertos ao ar livre no Largo do Teatro São Carlos. http://www.festivalaolargo.pt/
– Em Agosto, inevitável passar pelo anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, para os concertos épicos do “Festival Jazz em Agosto”.
– E, no final de Agosto, não percam a oportunidade de assistir às sessões do FUSO – Festival De vídeo arte nos jardins e terraços de Lisboa. A entrada é livre e permite uma experiência inédita, sempre com um programa de excelência.

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Um sonho a realizar em 2016?
Em 2016… Muitos… A começar por todos os que ainda não concretizei, apesar de já ter realizado tantos! Vou continuar a persegui-los, no presente e no futuro, claro! Mas há um muito especial, que gostaria de ter concretizado… Um sonho que há muito faz parte do meu imaginário… Gostaria de recuar até 1889 para embarcar na mítica rota do Expresso do Oriente, no tempo que ligava Paris a Constantinopla, e cruzar-me com algum assíduo ilustre passageiro da altura, embora a Mata Hari fosse a “desconhecida” que escolheria para companheira ao longo das então 75 horas de viagem. Não sendo possível resta-me ler os livros que me transportam para esse imaginário… Mas sonhos são sonhos, todos são válidos -)

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Três segredos sobre ti.
– Gosto cada vez mais de andar sozinha (passear, viajar, ir a concertos, cinema, exposições e até dançar!). Sempre fui muito independente, pois só bastante tarde encontrei sintonia com pessoas com quem sentisse verdadeiramente vontade de partilhar certas emoções e experiências, mas é uma forma de estar que em nada se confunde com solidão, pelo contrário, é precisamente pela vontade de entrega, aos momentos e às pessoas, que opto por exercer essa minha liberdade de escolha, de fazer as coisas sozinha ou acompanhada, com critério e sentido. Sinto uma maior predisposição e espontaneidade para viver os momentos como eles nos chegam, fazendo uma seleção natural, observando e absorvendo, o conteúdo, os detalhes e as pessoas nesses contextos. É uma forma de estar e de ser, no tempo e no modo, de como escolhemos relacionar-nos, connosco e com os outros..

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– Tenho um lado compulsivo a colecionar objetos antigos esquecidos, como caixas de música, caleidoscópios, relógios de bolso, livros infantis com ilustrações da época, joias antigas e colares de pérolas, luvas de renda… enfim, tudo que coubesse numa caixa de pandora perdida no tempo -)… Mas o que mais gosto mesmo de colecionar… Memórias.. minhas (guardo todos os meus diários, cartas de amor, postais, bilhetes de cinema, concertos, viagens, recados…) e memórias alheias, também.. fico horas sentada nos mercados de velharias, a vasculhar fotografias antigas, comidas pelo tempo, que retratem memórias de momentos de felicidade de desconhecidos, a tentar imaginar a história e a origem de cada um… (principalmente as que retratem momentos de férias, casamentos e batizados). Sempre que viajo parto vou em busca desses tesourinhos nos mercados locais.. e é tão engraçado ver como esse registo varia tanto, de país para país… como mudam os cenários, as expressões, as fisionomias, a interação entre as pessoas, e a reação à presença da objetiva, as roupas, os objetos presentes, as cores dominante. O registo dos mesmos momentos, mas que resultam em imagens tão diferentes, consoante as dimensões sociais e culturais.

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– Mais segredos… Os meus desportos preferidos, que já pratiquei, são Kick boxing, Basquetebol e Ballet… Estudei língua e cultura árabe durante três anos… Fui expulsa das aulas de piano, e como hoje me arrependo! O minha eterna faceta de enfant terrible, apesar do ar cândido que tinha em criança. Outro segredo…Sou eu o monstrinho que devora as gomas ácidas do pote dos doces dos meus filhos… Upsss… E, quando morre um peixe do aquário lá de casa, (ou quando o nosso gato comeu um deles!! Achei que só acontecia nos filmes! eu substituí por peixes iguais, sem eles darem por isso…

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Apresenta uma outra Menina ou Moça de que Lisboa vai ouvir falar.
Duas pessoas bonitas e genuínas, com quem pouco estou, mas de quem não me quero perder… a Joana Barrios e a Inês Fonseca Santos.

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Quase a terminar, um clássico: que pergunta faltou fazer? 
A sério, que não vais perguntar nada sobre o meu nome?
Esse elefante presente em todas as salas e momentos da minha vida desde que nasci, que tanto me ensinou sobre a condição humana, em consequência de cada reação que se gera quando pronuncio o meu nome, o silencio que se instala nos segundos que precedem a leitura do meu nome em qualquer lista, desde o primeiro dia de escola. Aprendi muito sobre os outros, a partir da sua reação espontânea ao relacionarem-se com o meu nome, na presença ou na ausência, suscitando sempre tantas questões, delicadas algumas. Sem falar nas mil versões que lhe continuam a atribuir, mesmo quando a mensagem que estão a editar tenha o meu nome no escrito endereço de email através do qual me estão a contactar. Conseguem chamar-me: Manilumba, Manimpula, AnaLinda, Nabaliza, NinaLina, Natalina, Namiliza, MariLimba, etc.. Mas também sorrio quando recebo uma carta endereçada a “Namalimba Ribeiro” em vez de Namalimba Coelho”… quando o erro se dá no apelido.

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Já escrevi muito mas gostava de concluir a explicar o meu nome. Orgulho-me muito dele, pelo que representa, e gostava que, todos pensassem um segundo como seria delicado se diariamente pronunciassem erradamente o respetivo nome.. uma vez tem piada, algumas vezes também passa.. mas sempre?? Quem não se preocupa em repetir bem, gostava que tentasse perceber como isso é importante para quem vive um nome como um legado. Angola deu-me o nome, Namalimba, uma lenda do Huambo (da princesa e da tartaruga), escolhido pelos meus pais pela relação com o contexto político e com a história de Angola no ano em que nasci, em 1976. Um nome que acabou por se revelar um legado, recordando-me e reforçando continuamente os laços afetivos e culturais que me ligam a Angola. O meu nome foi o meu primeiro desafio, e continua a sê-lo. Quando cheguei a Lisboa, enfrentei uma realidade cultural e social bastante distinta da que tinha como referência até então, com um nome peculiar numa menina loirinha que falava com algumas expressões igualmente singulares.

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Foi todo um conjunto de fatores que, desde cedo, me fizeram questionar o que me aproximava ou distinguia, tendo acabado por influenciar a formação da minha personalidade. O meu nome revelou-se também um dos mais importantes legados de vida. Ensinou-me a crescer e a lidar com a diferença, no sentido de aprender a viver e a construir uma identidade própria, sem necessidade de procurar semelhantes ou referências que me servissem de padrão. Estimulou-me ainda mais na minha natureza curiosa e comunicativa, apaixonada pelo que está fora da minha zona de conforto, que me levou a questionar, observar, absorver, respeitar e valorizar o que nos distingue, e a enaltecer a autenticidade e idiossincrasia de cada pessoa. O meu nome continua a ensinar-me todos os dias sobre muitas coisas, inclusive sobre as pessoas, através de detalhes tão simples como a reação delas ao meu nome, em contextos profissionais como pessoais. Confesso que não sei como reagiria se algum dia me apresentassem outra Namalimba.

Qual das fotos da sessão usarias como imagem de perfil?

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Lisboa, Junho 2016.

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